TL;DR
Em 1930, a Post era a líder do mercado americano de cereais. Cortou investimento em publicidade durante a Grande Depressão. A Kellogg's dobrou o orçamento, entrou no rádio e lançou o Rice Krispies. Em 1933, os lucros da Kellogg's cresceram 30% e ela passou a Post. O mecanismo por trás disso tem nome e equação: Excess Share of Voice. Les Binet e Peter Field quantificaram com dados de 2.000 campanhas na base do IPA: para cada 10 pontos de diferença positiva entre Share of Voice e Share of Market, uma marca ganha em média 0,6% de participação de mercado por ano. O mercado sabe disso desde 1990, quando John Philip Jones publicou o estudo no Harvard Business Review. E continua orçando publicidade pela participação de mercado atual, como se a equação não existisse.
Uma crise, duas decisões, um mercado inteiro invertido
O ano é 1929. A Grande Depressão acabou de começar. O mercado de cereais matinais tem dois grandes players: Post e Kellogg's, com a Post na liderança. A decisão natural em uma crise econômica de proporções históricas é reduzir custos. Post fez exatamente isso: cortou o orçamento de publicidade.
A Kellogg's tomou a decisão oposta. Dobrou o investimento em publicidade, comprou espaço extenso no rádio, o canal de massa que crescia naquele momento, e lançou o Rice Krispies com uma campanha agressiva. Gastou mais do que sua participação de mercado justificaria. Muito mais.
O resultado chegou em 1933. Os lucros da Kellogg's cresceram quase 30% durante a depressão mais severa da história americana. A empresa superou a Post e se tornou a líder do mercado, posição que manteve por décadas. A Post nunca mais recuperou a liderança perdida naquele período.
Esse caso tem um nome técnico. A ciência do marketing documentou o mecanismo com dados e equações: Excess Share of Voice.
A crença que o mercado abraça
A lógica predominante em orçamentos de publicidade funciona assim: a empresa tem 12% de market share, então o orçamento razoável de publicidade é aproximadamente 12% do investimento total da categoria. Proporcional. Justo. Eficiente na aparência.
Essa lógica parece sensata porque protege margens no curto prazo. Em uma recessão, protege ainda mais: cortar proporcionalmente com os concorrentes preserva a posição relativa sem comprometer caixa. O problema é que essa lógica produz exatamente o oposto do crescimento.
John Philip Jones, professor de Syracuse University, foi o primeiro a quantificar a relação entre Share of Voice e Share of Market com rigor. O estudo "Ad spending: maintaining market share", publicado no Harvard Business Review em 1990, analisou marcas em múltiplas categorias e documentou a correlação: marcas com SOV maior que seu SOM crescem. Marcas com SOV menor que seu SOM encolhem.
Jones chamou as primeiras de "investment brands" e as segundas de "profit-taking brands". A terminologia revela a lógica subjacente. Uma marca com SOM alto pode extrair rentabilidade com SOV proporcionalmente menor: sua disponibilidade mental acumulada sustenta compras sem investimento constante. Uma marca que quer crescer precisa investir além do que sua participação atual justificaria.
A crença prevalente no mercado trata publicidade como custo proporcional ao tamanho. A ciência trata publicidade como investimento com retorno assimétrico dependendo da posição relativa.
Binet, Field e a base de 2.000 campanhas
Les Binet e Peter Field são os pesquisadores que transformaram o trabalho de Jones em um framework quantificado para decisão de orçamento. Eles analisaram a base de dados do IPA (Institute of Practitioners in Advertising) do Reino Unido, que reúne estudos de eficácia publicitária premiados desde a década de 1980. Ao longo dos anos, analisaram mais de 2.000 campanhas de décadas de dados.
O resultado mais citado do trabalho deles está em "Marketing in the Era of Accountability" (IPA/WARC, 2007) e em "The Long and the Short of It" (IPA/WARC, 2013). A relação entre ESOV e crescimento de participação de mercado é precisa: para cada 10 pontos percentuais de ESOV positivo, marcas B2C ganham em média 0,6% de market share ao ano. Em mercados B2B, o efeito é ligeiramente maior, em torno de 0,7%.
O ESOV é calculado de forma direta: ESOV = SOV menos SOM. Share of Voice é a proporção do investimento total em publicidade da categoria que a marca representa. Share of Market é a participação de mercado atual. Se uma marca tem 15% de SOV e 10% de SOM, seu ESOV é +5 pontos. Espera-se um crescimento de market share de aproximadamente 0,3% ao ano por essa diferença, segundo a equação de Binet e Field.
"Se você quer crescer, precisa investir acima da sua participação de mercado. Caso contrário, está apenas preservando o que tem, e provavelmente perdendo devagar." Les Binet & Peter Field, The Long and the Short of It, IPA/WARC, 2013
O inverso também funciona. ESOV negativo produz erosão de mercado. Marcas que cortam investimento proporcionalmente mais que os concorrentes, ou que simplesmente mantêm o orçamento enquanto a categoria cresce ao redor delas, veem sua participação encolher ao longo do tempo. O ritmo é gradual o suficiente para que os gestores atribuam a queda a outras causas, produto, distribuição, estratégia de preço, enquanto o mecanismo real opera silenciosamente.
Fonte: Binet & Field, análise da base IPA com 2.000 campanhas
O que o tamanho da marca muda na equação
A relação entre ESOV e crescimento não é uniforme. Marcas líderes e marcas desafiadoras respondem de forma diferente ao mesmo nível de ESOV.
Marcas líderes de mercado ganham em média 1,4% de market share por cada 10 pontos de ESOV. Marcas desafiadoras ganham cerca de 0,4%. A diferença existe porque marcas maiores têm disponibilidade mental acumulada que amplifica o retorno de cada investimento em publicidade. Um ponto adicional de Share of Voice tem mais peso quando a marca já ocupa espaço significativo na memória do consumidor.
A implicação para marcas menores é de duas naturezas. Primeiro, elas precisam de ESOV proporcionalmente maior para crescer na mesma velocidade que uma marca líder. Segundo, a qualidade criativa compensa parte dessa desvantagem estrutural. Binet e Field documentaram que campanhas premiadas por criatividade entregam significativamente mais crescimento de market share por ponto de ESOV do que campanhas medianas. Criatividade é um multiplicador de eficiência de investimento.
Há um outro fator que modifica a equação: a fase da marca. Marcas novas, em categorias com alta pesquisa online, ou em processo de lançamento de inovação de produto, apresentam eficiência de ESOV muito maior que marcas estabelecidas. O mesmo 10 pontos de ESOV positivo pode gerar crescimento duas ou três vezes maior quando a marca está em um momento de entrada ou reposicionamento de categoria.
Kellogg's na Depressão: o mecanismo em câmera lenta
O caso Kellogg's versus Post permite reconstruir o mecanismo do ESOV com detalhe.
Quando a Post cortou investimento em publicidade, seu Share of Voice caiu. O Share of Market da Post ainda era alto, porque participação de mercado não cai imediatamente. O ESOV da Post ficou negativo: SOV abaixo do SOM. Segundo a equação de Binet e Field, isso sinaliza erosão futura de participação.
A Kellogg's, ao dobrar o investimento, elevou seu Share of Voice para muito acima de seu Share of Market. ESOV fortemente positivo. Mais: entrou em um novo canal (rádio) onde a Post estava ausente, elevando ainda mais o diferencial de voz. A disponibilidade mental da Kellogg's cresceu enquanto a da Post enfraquecia.
O resultado em 1933 foi previsível pela lógica do ESOV, mesmo que não tenha sido previsto pelos gestores da época. Crescimento de lucros em plena depressão e inversão da liderança de mercado são o produto esperado de anos de ESOV positivo competindo com ESOV negativo.
Esse padrão se repetiu em todas as recessões documentadas na base do IPA. Marcas que mantiveram ou aumentaram investimento durante crises enquanto concorrentes cortavam ganharam participação de mercado de forma consistente. O custo de manter o investimento durante a crise foi financiado pelo crescimento que veio depois.
Salesforce: ESOV como estratégia deliberada em B2B
O caso mais documentado de ESOV positivo intencional em mercados B2B contemporâneos é o da Salesforce.
No início dos anos 2000, a Salesforce era uma startup de CRM em um mercado dominado por SAP, Oracle e Siebel Systems. Sua participação de mercado era mínima. A decisão estratégica da empresa foi investir em Share of Voice muito acima do que sua participação justificaria, com Dreamforce como evento central dessa estratégia, somado a presença agressiva em mídia especializada e patrocínios de visibilidade.
O ESOV estimado da Salesforce chegou a 47 pontos em períodos de crescimento acelerado, segundo análises de participação de voz no setor de CRM. O resultado em crescimento de receita foi composto ao longo de anos: a empresa projetou um CAGR de 10,6% entre 2022 e 2032 em um mercado que ela basicamente reconformou.
Juniper Networks, fabricante de equipamentos de rede, testou o mesmo princípio em escala menor e com resultados mensuráveis em prazo mais curto. A empresa triplicou o orçamento de marketing focado em awareness, elevando seu Share of Voice em 28 pontos percentuais em relação aos concorrentes principais. Em seis meses, o crescimento de receita ano a ano foi de 19%.
O padrão Binet e Field em B2B profissional é ainda mais favorável que em B2C. Em serviços profissionais B2B, a relação identificada pelo IPA em parceria com o LinkedIn mostra 1,8% de crescimento de market share por 10 pontos de ESOV. A disponibilidade mental em ambientes de compra complexa, onde o ciclo de decisão é longo, depende de consistência de presença ao longo do tempo. ESOV positivo sustentado por anos cria uma assimetria de memória que se traduz em preferência nas horas de decisão.
O que acontece quando as companhias aéreas cortam
A análise pós-pandemia de companhias aéreas, publicada pela WARC em 2022, é um dos estudos mais claros sobre o custo de ESOV negativo em tempo real.
Entre 2020 e 2021, algumas companhias aéreas reduziram investimento em publicidade ao mínimo, tratando o corte como medida necessária diante da queda abrupta de demanda. Outras mantiveram ou aumentaram presença, apostando na recuperação futura.
O resultado medido em consideração do consumidor foi dramático. Marcas que cortaram publicidade viram a consideração dos consumidores cair três vezes mais rápido do que as que mantiveram investimento. Entre companhias de médio porte, as que continuaram anunciando alcançaram cinco vezes mais consideração nos mercados onde as campanhas rodaram.
A Wizz Air, companhia aérea de baixo custo, continuou anunciando durante a pandemia enquanto concorrentes de porte similar cortavam. Em 2021, recuperou 125% da receita do ano anterior. O ESOV positivo durante um período em que toda a categoria estava com SOV deprimido gerou um diferencial de memória que se converteu em demanda quando o mercado reabriu.
O mecanismo por trás dos dados de aviação é o mesmo da Kellogg's em 1930. Quando concorrentes reduzem voz, o custo para aumentar ESOV cai. A mesma verba compra mais Share of Voice relativo. Marcas que entendem isso tratam crises como janelas de oportunidade de ESOV, e as que não entendem tratam como motivo para corte.
Por que o mercado ignora uma equação com 35 anos de evidência
O trabalho de Jones data de 1990. O de Binet e Field, em sua forma mais consolidada, de 2007 e 2013. A equação ESOV tem mais de três décadas de validação empírica em múltiplas categorias e mercados.
O problema é estrutural. Orçamentos de marketing são aprovados em ciclos anuais com base em resultados do ano anterior. Share of Market é o denominador mais visível e politicamente palatável para justificar investimento. Crescer o orçamento além do que a participação atual justifica exige uma argumentação prospectiva, baseada em dados de retorno de médio prazo, em um ambiente onde o CFO quer evidência de retorno imediato.
Há também o viés da proporcionalidade. Gastar 12% do orçamento da categoria quando se tem 12% de market share parece eficiente. Gastar 18% quando se tem 12% parece imprudente. A matemática do ESOV diz o oposto, mas a percepção de risco domina a decisão.
Binet e Field documentaram um terceiro obstáculo: o desbalanceamento entre brand building e ativação de vendas. Marcas que investem em ativação de curto prazo (promoções, performance, campanhas de conversão) conseguem resultados imediatos mensuráveis. Marcas que investem em brand building constroem o SOV de longo prazo que alimenta ESOV positivo. O split ótimo, segundo os dados do IPA, é 60% em brand building e 40% em ativação. A média de mercado está invertida, com a maioria das empresas alocando acima de 60% em ativação. O resultado é erosão gradual de disponibilidade mental, queda de SOV estrutural e ESOV progressivamente negativo sem que os dashboards de performance mostrem o problema.
A lógica do investimento vs. extração
Investment brands (ESOV positivo): SOV maior que SOM. A marca está investindo em crescimento. Cada ponto de SOV acima do SOM é capital aplicado em disponibilidade mental futura. O retorno chega em ganho de market share ao longo de 12 a 24 meses.
Profit-taking brands (ESOV negativo): SOV menor que SOM. A marca extrai valor da disponibilidade mental acumulada sem reposição. Funciona por um período, porque memória de marca não evapora imediatamente. O custo aparece mais tarde, quando a penetração cai e a frequência de compra enfraquece.
A armadilha: A deterioração de ESOV negativo é lenta o suficiente para passar desapercebida até que a queda de market share seja severa. Nesse ponto, recuperar a posição exige muito mais investimento do que teria custado manter o SOV durante o período de extração.
Como calcular e usar o ESOV na prática
Framework ESOV: 5 passos para orçamento baseado em evidência
- Calcule seu Share of Market atual. Participação de mercado em volume ou receita na categoria definida. A definição de categoria importa: estreita demais subestima concorrentes reais, larga demais dilui o sinal. Use a categoria como o consumidor a percebe, não como a empresa a classifica internamente.
- Estime o investimento total da categoria em publicidade. Inclua todos os concorrentes relevantes em todos os canais: TV, digital, mídia exterior, rádio, patrocínios. Ferramentas de monitoramento de mídia (Nielsen Ad Intel, Kantar, Pathmatics) fornecem esses dados. Em mercados sem dados consolidados, use proxies de visibilidade orgânica e paga.
- Calcule seu Share of Voice e o ESOV resultante. SOV = seu investimento dividido pelo investimento total da categoria. ESOV = SOV menos SOM. ESOV positivo indica posição de crescimento. ESOV negativo indica posição de extração ou declínio.
- Defina o objetivo de crescimento e trabalhe o ESOV necessário de trás para frente. Crescer 2% de market share ao ano em B2C exige aproximadamente 33 pontos de ESOV positivo, segundo a equação de Binet e Field. Esse número traduz o objetivo de crescimento em meta de investimento em publicidade relativo à categoria.
- Revise o split brand building vs. ativação. ESOV positivo com orçamento concentrado em ativação produz resultado de curto prazo sem construção de memória de marca. O investimento em brand building é o que sustenta o SOV estrutural. Sem o equilíbrio correto (referência: 60/40 do IPA), o ESOV positivo tem eficiência reduzida e o crescimento de market share vem abaixo do previsto pela equação.
O que isso muda para quem planeja orçamento
O erro mais comum em planejamento de marketing está antes da alocação. O critério para definir o tamanho do orçamento é o problema.
Usar market share atual como âncora para orçamento de publicidade confunde causa com efeito. Market share atual é o resultado acumulado de decisões passadas de investimento. O orçamento de publicidade de hoje determina o market share de amanhã. Tratar o primeiro como parâmetro do segundo é circular e produz, no melhor caso, estabilidade. No caso de concorrentes com ESOV positivo, produz erosão gradual.
A pergunta que os dados de Binet e Field respondem com precisão é outra: quanto precisamos investir em publicidade para crescer X pontos de market share nos próximos dois anos? Com o ESOV da categoria, o investimento total dos concorrentes e a equação estabelecida, o cálculo é direto. O orçamento deixa de ser negociação política e passa a ser projeção baseada em evidência.
Não há garantia de que o resultado chegará exatamente no prazo ou na magnitude prevista. Binet e Field trabalham com médias de 2.000 campanhas, e qualidade criativa, contexto competitivo e fatores externos afetam o resultado individual. Mas o sentido da relação é robusto: ESOV positivo sustentado cresce participação de mercado. ESOV negativo sustentado erode participação de mercado. Isso a equação garante.
A Kellogg's não sabia de ESOV em 1930. Fez a aposta intuitiva e certa. Com os dados de Binet e Field, não há mais justificativa para fazer a aposta errada por ignorância.
Referências
Livros e Publicações
- Binet, Les & Field, Peter. The Long and the Short of It: Balancing Short and Long-Term Marketing Strategies. IPA/WARC, 2013.
- Binet, Les & Field, Peter. Marketing in the Era of Accountability. IPA/WARC, 2007.
- Binet, Les & Field, Peter. Media in Focus: Marketing Effectiveness in the Digital Era. IPA/WARC, 2017.
- Sharp, Byron. How Brands Grow: What Marketers Don't Know. Oxford University Press, 2010.
Artigos e Estudos
- Jones, John Philip. "Ad spending: maintaining market share." Harvard Business Review, Jan-Feb 1990.
- Jones, John Philip. "Share of voice/share of market and long-term advertising effects." Journal of Advertising Research, 1990.
- LinkedIn B2B Institute & IPA. "The B2B Institute Effectiveness Code." 2021.
- WARC. "Share of Voice and Market Share: The Airlines Recovery Report." 2022.
- Nielsen. "Budgeting for the Upturn: Does Share of Voice Matter?" Nielsen Insights, 2009.
Fontes de Indústria
- Kellogg Company. "Our History." kelloggs.com/en_US/our-story.
- Salesforce Inc. Annual Report 2024. investor.salesforce.com.
- Wizz Air Holdings. Annual Report and Accounts 2022. wizzair.com/investors.
- IPA (Institute of Practitioners in Advertising). IPA Effectiveness Databank. ipa.co.uk.