📅 10 de fevereiro de 2026 ⏱️ 18 min de leitura 🏷️ O Ofício

Future Demand Generation: Como Provar ROI de Brand Marketing Para VPs Performance-Driven

Um profissional de marketing de uma empresa SaaS de médio porte postou recentemente em uma comunidade de marketing online: "Como posso provar o ROI de brand marketing para meu VP extremamente focado em performance? Ele exige ROAS imediato e não consigo fazer o business case de brand awareness colar."

A resposta mais útil foi surpreendentemente simples: "Pare de chamar de 'brand awareness'. Comece a chamar de 'future demand generation'. E leia Binet & Field."

Esse conselho, por mais direto que seja, revela algo fundamental sobre o problema que muitos profissionais de marketing enfrentam hoje. A questão não é se brand marketing gera retorno. A ciência já provou que gera, e de forma substancial. O problema é que estamos usando a linguagem errada, as métricas erradas e o horizonte temporal errado para defender investimentos em brand.

Este artigo apresenta um framework completo para vender brand marketing internamente, baseado na ciência de marketing effectiveness de Les Binet, Peter Field e Byron Sharp. Não é teoria. É um sistema prático que você pode usar amanhã para construir o business case que sua liderança precisa ver.

Por Que Esse Problema Existe

A tensão entre brand e performance não é acidental. É estrutural.

Nos últimos 15 anos, o marketing digital criou a ilusão de que tudo pode ser medido imediatamente. Clique, conversão, ROAS, CAC. Métricas claras, atribuição direta, resultados em dias. Essa mentalidade dominou a indústria porque entrega o que CFOs e CEOs adoram: previsibilidade e controle.

Brand marketing, por outro lado, funciona de forma diferente. Os efeitos são difusos, acumulativos e demoram para aparecer. Você investe hoje e colhe resultados nos próximos 6 a 24 meses. Para uma liderança treinada a pensar em quarters e ROI imediato, isso parece vago, arriscado e impossível de justificar.

O resultado é previsível: empresas cortam brand, dobram em performance e assistem seus CACs subirem trimestre após trimestre. Les Binet e Peter Field documentaram esse fenômeno em "The Long and the Short of It" (2013) e depois em "The 5 Principles of Growth in B2B Marketing" (2019). Empresas que abandonam brand marketing crescem mais devagar e pagam mais caro por cada cliente ao longo do tempo.

O problema não é brand marketing. O problema é como apresentamos brand marketing.

O Framework: Future Demand Generation

Aqui está o sistema completo para convencer liderança cética sobre brand marketing. Cinco componentes, nessa ordem.

1. Mude a Linguagem

VPs performance-driven rejeitam "brand awareness" porque a palavra "awareness" soa como métrica de vaidade. E, sejamos honestos, muitas vezes é. Impressões, alcance, lembrança de marca sem conexão com vendas são o tipo de coisa que destruiu a credibilidade de brand marketing.

A solução não é defender awareness. A solução é redefini-la.

Use estas palavras:

Byron Sharp, em "How Brands Grow", demonstra que brands crescem ao serem mentalmente disponíveis quando compradores entram na categoria. Isso não é vago. É específico. Quando alguém pensa "preciso de um CRM", sua marca precisa vir à mente. Se não vier, você não existe no momento da decisão. Simples assim.

"Future demand generation" é exatamente isso: criar disponibilidade mental para compras futuras. Você não está "fazendo branding". Você está construindo pipeline de longo prazo.

2. Mostre o Custo de Não Fazer Brand

Performance VPs respondem a risco. Mostre o risco de só fazer performance.

CAC Creep: A Matemática da Insustentabilidade

Empresas que investem exclusivamente em performance marketing experimentam um fenômeno chamado CAC Creep: o custo de aquisição de clientes aumenta consistentemente ao longo do tempo.

Por quê? Três razões:

  1. Diminishing returns em canais de performance. Quanto mais você investe em Google Ads ou Meta Ads, mais caro fica cada incremento de conversão. A curva de resposta não é linear.
  2. Concorrência crescente. Se você está apenas comprando atenção em leilões de anúncios, seus concorrentes também estão. Os CPMs sobem para todos.
  3. Falta de preference premium. Sem brand equity, você compete exclusivamente em preço e conveniência. Qualquer concorrente com oferta similar rouba seu cliente.

Binet & Field analisaram centenas de campanhas e encontraram um padrão claro: empresas que investem 60% do budget em brand e 40% em activation (performance) têm CACs mais estáveis e margens melhores ao longo do tempo. Empresas que invertem essa proporção experimentam crescimento volátil e CAC crescente.

Apresente assim:

"Nosso CAC subiu X% nos últimos Y trimestres. Isso não é acidental. É o que acontece quando dependemos exclusivamente de performance marketing. Marcas sem brand equity pagam preço premium por cada cliente. Brand marketing é o que estabiliza CAC de longo prazo."

Dados concretos vencem opinião. Se o CAC da sua empresa está subindo, você tem o argumento na mão.

3. Defina Métricas Leading Indicators

A objeção mais comum a brand marketing é: "Como vamos medir isso?"

Resposta: da mesma forma que medimos qualquer investimento de longo prazo. Com leading indicators que predizem trailing indicators.

Trailing indicators são os resultados finais que VPs performance-driven já acompanham: pipeline, MRR, CAC, LTV. Esses são os resultados que você quer afetar.

Leading indicators são as métricas que antecedem esses resultados. São elas:

Estruture um dashboard assim:

Leading Indicator Baseline Meta Q2 Meta Q4
Share of search 8% 12% 18%
Aided awareness (ICP) 22% 35% 50%
Direct traffic MoM growth Flat +10% +25%

Trailing Indicator (o que você quer afetar):

Resultado Baseline Projeção Q4
CAC $850 $750 (-12%)
Pipeline orgânico $2.1M $3.5M (+67%)

Isso não é vago. Isso é estruturado como qualquer dashboard de performance. A diferença é que você está medindo a construção de demanda futura, não a captura de demanda existente.

4. Proponha um Piloto de 90 Dias

VPs céticos não vão aprovar um ano inteiro de budget para brand. Nem deveriam. Peça um piloto.

Estrutura do piloto:

"Proponho um teste controlado de 90 dias com 10% do budget. Vamos medir share of search, brand lift e impacto incremental em pipeline. Se não movermos essas métricas, paramos. Se movermos, escalamos."

Isso transforma brand marketing em algo que soa como um A/B test. Menor risco, maior chance de aprovação.

5. Prepare a Apresentação Executiva

Você tem a linguagem certa, o argumento de risco, as métricas e o piloto. Agora precisa apresentar isso de forma que sua liderança entenda em 10 minutos.

Estrutura do deck (5 slides):

Slide 1: O Problema
"Nosso CAC subiu X% nos últimos Y trimestres. Estamos pagando mais caro por cada cliente."

Slide 2: A Causa
"Isso acontece quando empresas dependem exclusivamente de performance marketing. Binet & Field estudaram 500+ campanhas e encontraram o mesmo padrão: CAC creep é resultado de subinvestimento em brand."

Slide 3: A Solução
"Brand marketing cria future demand generation: disponibilidade mental que reduz CAC ao longo do tempo. Empresas que investem 60% em brand e 40% em activation crescem mais rápido e com margens melhores."

Slide 4: Como Vamos Medir
"Leading indicators: share of search, brand lift, direct traffic. Trailing indicators: CAC, pipeline orgânico, LTV."

Slide 5: O Piloto
"Teste de 90 dias, 10% do budget, métricas claras de sucesso. Se funcionar, escalamos. Se não funcionar, paramos."

Simples, direto, baseado em dados. Sem jargão, sem "precisamos investir em brand porque sim".

Exemplos Reais

Esse framework não é teórico. Empresas reais usaram abordagens similares para convencer liderança cética.

Gong (EUA, Sales Intelligence Software)

Gong é conhecida por suas campanhas agressivas de brand marketing em um mercado tradicionalmente focado em performance. A empresa investe pesadamente em podcasts (Gong's Revenue Champions), LinkedIn brand campaigns e eventos presenciais.

O resultado: Gong se tornou top-of-mind em sales intelligence em menos de 5 anos. Share of search cresceu de praticamente zero para disputar com incumbentes. Em 2022, a empresa atingiu valuation de $7.25 bilhões. Brand marketing foi parte central da estratégia desde o início.

Notion (EUA, Productivity Software)

Notion cresceu organicamente durante anos antes de fazer performance marketing. A estratégia era criar community-led growth e brand love via content, templates e word of mouth. Quando finalmente começaram a investir em paid ads, o CAC era substancialmente menor do que concorrentes porque brand equity já existia.

Em 2024, Notion tem 30+ milhões de usuários. A estratégia brand-first permitiu escalar performance marketing de forma mais eficiente.

Creditas (Brasil, Fintech)

Creditas investiu fortemente em brand marketing desde 2019, incluindo TV aberta, patrocínios e campanhas de awareness. Em um mercado onde fintechs competiam exclusivamente em performance marketing digital, Creditas apostou em brand para criar diferenciação.

O resultado: awareness de marca cresceu significativamente em público de alta renda (target principal). A empresa conseguiu captar R$ 1 bilhão em 2021 e se tornou referência em crédito com garantia no Brasil. Brand marketing foi fundamental para criar preference premium em uma categoria commoditizada.

Esses exemplos mostram o mesmo padrão: empresas que investem em brand cedo reduzem o custo de escalar performance mais tarde.

Conclusão

Brand marketing não é fé. É ciência.

O problema nunca foi provar que brand marketing funciona. O problema sempre foi convencer liderança de que vale a pena investir agora para colher resultados depois.

A solução não é melhorar o brand marketing. A solução é melhorar como vendemos brand marketing internamente.

Mude a linguagem. Mostre o custo de não fazer. Defina métricas leading indicators. Proponha um piloto. Prepare uma apresentação executiva clara.

Se você fizer isso com rigor, não está pedindo aprovação para "fazer awareness". Você está propondo um investimento em future demand generation com métricas claras de sucesso e um plano de teste controlado.

Isso não garante aprovação. Mas transforma a conversa de subjetiva para objetiva. De "eu acho que deveríamos" para "os dados mostram que precisamos".

E se sua liderança ainda rejeitar depois de ver dados, métricas e um plano estruturado, talvez o problema não seja seu business case. Talvez seja a empresa.

Nesse caso, você tem uma escolha: continuar assistindo CAC subir ou levar suas habilidades para uma organização que entende como marcas realmente crescem.


Diego Isaac
Estrategista de marcas
diegoisaac.com.br