O Futuro do Planejamento Publicitário: Crise ou Evolução?

O planner generalista está em extinção. Mas o pensamento estratégico nunca foi tão valorizado. Mark Ritson prevê o fim do media planning até 2030. Entenda a fragmentação do planning e os novos papéis especializados que estão surgindo.

TL;DR

O Pânico Tem Endereço

Mark Ritson não é homem de meias palavras. Em agosto de 2025, ele declarou: "Media planning as a pursuit is over. Strategic media planning will be eliminated by 2030s."

Não foi clickbait. Foi diagnóstico.

Ritson, professor de marketing na Universidade de Melbourne e uma das vozes mais respeitadas (e temidas) da publicidade mundial, estava falando de algo que todo planner sente mas poucos admitem: o papel está mudando tão rápido que o título virou quase obsoleto.

Você ainda se apresenta como "planner"? Boa sorte explicando o que isso significa.

Os Dados Confirmam o Desconforto

O Brasil investiu R$ 37 bilhões em publicidade digital em 2024, crescimento de 9,1% em relação a 2023. As agências estão contratando. O mercado está aquecido.

Mas não procure vagas para "planner generalista". Procure:

O planner que sabia de tudo um pouco? Esse sumiu. E não voltou.

Por Que Aconteceu

1. A Fragmentação Digital

Quando tudo era TV + print + rádio, um único cérebro estratégico conseguia pensar o todo. Hoje, o ecossistema de mídia tem 47 canais, 12 formatos de conteúdo, 6 plataformas de automação, e muda a cada trimestre.

Ninguém domina tudo. E quem finge que domina está blefando.

2. A Pressa Matou o Planning

O ciclo de campanha que era 6 meses virou 6 semanas. Brief na segunda, apresentação na quinta. Planejamento virou luxo que o procurement cortou.

"Real-time planning" virou eufemismo para "não tem tempo pra pensar direito, improvisa aí".

3. A IA Comeu o Meio-Termo

Pesquisa desk? ChatGPT faz em 3 minutos. Análise de dados? Gemini processa 50 mil linhas de Excel. Benchmark de concorrentes? Claude monta em 10 minutos.

Tudo que era "planner júnior faz" virou tarefa de máquina.

O que sobrou? O que IA não faz: julgamento estratégico sob incerteza.

O Que Sobrevive

Mark Ritson, o mesmo que decretou a morte do media planning, disse algo crucial:

We still need a brand manager. The ability to say no to a bad idea when the algorithm says yes.

Essa frase resume tudo.

IA otimiza. Humanos decidem o que otimizar.

As skills insubstituíveis do planner 2026:

1. Enquadramento de Problema

IA responde perguntas. Você define qual pergunta vale a pena responder.

Cliente diz: "Precisamos de mais engajamento no Instagram."
Planner pergunta: "Por que Instagram é o problema? Não seria falta de distintividade da marca?"

Enquadrar o problema certo é a skill mais subestimada (e mais crítica).

2. Julgamento sob Ambiguidade

Dados dizem uma coisa. Intuição diz outra. Cliente quer um terceiro caminho. CEO tem prazo impossível.

IA não sabe navegar isso. Você sabe.

3. Liderança sem Autoridade

Você não manda em criação. Não manda em mídia. Não manda no cliente.

Mas precisa fazer todos alinharem em torno de uma estratégia. Isso exige presença, narrativa, confiança.

IA não senta na mesa com o CEO e defende um investimento de marca que só vai pagar em 3 anos.

Você faz.

A Fragmentação em Ação

O "planner" explodiu em papéis especializados. Exemplos reais:

Behavioral Science Planner

Aplica economia comportamental (Kahneman, Ariely, Thaler) em briefs, testes A/B, arquitetura de escolha.

Exemplo: Nubank usa behavioral science para desenhar onboarding com menos fricção. Não é "UX". É strategy aplicada.

Data Strategist

Pega dashboards incompreensíveis e traduz em narrativa acionável.

Exemplo: Combinar dados de CRM + social listening + search trends pra identificar quando uma categoria está entrando em declínio antes do cliente perceber.

Cultural Intelligence Analyst

Decodifica códigos culturais, tendências emergentes, shifts geracionais.

Exemplo: Entender que Gen Z não "compra propósito" como Millennials. Eles querem autenticidade sem performatividade.

Brand Architect

Constrói sistemas de marca (plataforma, território, códigos distintivos), não campanhas isoladas.

Exemplo: Trabalho de longo prazo em ativos distintivos (Romaniuk, Sharp) em vez de campanha tática.

O Planner Híbrido

O futuro não pertence ao generalista. Pertence ao híbrido: alguém com expertise profunda em UMA área + competência transversal em estratégia.

Exemplos:

Não basta "entender de estratégia". Precisa entregar valor técnico tangível.

R$ 37bi
Investimento em publicidade digital no Brasil (2024)

Casos Brasileiros

🟢 Agências que se adaptaram

Sunset: Criou área dedicada de Behavioral Science. Contratos de longo prazo com clientes. Planejamento virou consultoria, não apenas campanha.

AlmapBBDO: Investiu em "Brand Strategy" como área separada de campanha. Planner virou arquiteto de marca, não apenas briefer de criação.

🔴 Agências que insistem no modelo antigo

Várias agências médias no Brasil ainda têm "planejamento" como uma pessoa júnior que faz pesquisa desk e monta apresentação.

Essas agências perdem pitch para consultorias (McKinsey, Bain, Accenture) que entraram em branding com rigor metodológico.

O Futuro Não É Morte. É Metamorfose.

O planner generalista morreu. Mas o pensamento estratégico nunca foi tão valioso.

A IA automatizou a pesquisa básica. Sobrou o que importa: julgamento, liderança, enquadramento de problemas complexos.

Se você ainda se apresenta como "o planner que faz de tudo", está competindo com IA e perdendo.

Se você é "o estrategista que entende de behavioral science e aplica Sharp/Romaniuk pra construir distintividade", você tem futuro.

A pergunta não é se o planning vai acabar.

A pergunta é: que tipo de planner você vai ser?

FAQ

O planner vai ser eliminado das agências?

O título "planner" pode sumir. A função de pensamento estratégico não. Mas o perfil muda: especialização técnica + visão estratégica.

Como se tornar planner em 2026?

Escolha uma especialização: Behavioral science (Kahneman/Ariely), Data strategy (SQL, Python), Cultural intelligence (semiótica, antropologia), ou Brand architecture (Ehrenberg-Bass, Romaniuk, Sharp). Depois, conecte isso a estratégia de marca.

Qual a diferença entre planner e estrategista de marca?

"Planner" virou termo genérico. "Estrategista de marca" é mais específico: foca em construção de marca de longo prazo, não apenas em campanha. Mas ambos fazem pensamento estratégico. A diferença é semântica, não funcional.

Referências

  1. Ritson, M. (2025). "Strategic media planning 'eliminated' by 2030s". B&T Magazine.
  2. Journalism University (2025). "The Evolution and Essence of Account Planning in Advertising".
  3. Social Samosa (2026). "As media planning resets, the skills that define a strong planner in 2026".
  4. Kantar IBOPE Media (2024). "Advertising Intelligence Total Meios 2024".
  5. Forbes Brasil (2025). "Comércio lidera investimento em publicidade digital no Brasil".
  6. Operand (2025). "O que é um planner e qual o seu papel em uma agência de publicidade".
  7. Marketing Week (2025). "7 trends that will impact media and marcoms in 2026".
  8. World Economic Forum (2025). "The Future of Jobs Report 2025".
  9. Exame (2025). "5 profissões para quem se formou em publicidade e propaganda".
  10. Meio & Mensagem (2025). "As melhores agências para trabalhar em 2025, segundo o GPTW".