Programas de fidelidade são um dos maiores desperdícios do marketing moderno. A pesquisa do Ehrenberg-Bass Institute, com mais de 50 anos de dados empíricos, prova: marcas crescem aumentando penetração, não fidelidade. A maioria dos seus compradores te escolhe uma ou duas vezes por ano. Tentar transformá-los em fanáticos é matematicamente ineficiente. O caminho real é ser lembrado por mais pessoas, em mais situações de compra.
O programa que não funcionou
Em 2017, a Coca-Cola encerrou o My Coke Rewards após 12 anos de operação. O programa tinha 22 milhões de membros registrados. Consumidores acumulavam pontos digitando códigos encontrados em tampas e embalagens. Com esses pontos, trocavam por prêmios, ingressos, produtos.
Parecia fidelidade. Parecia engajamento. Tinha tudo o que um profissional de marketing ama ver num dashboard: usuários ativos, recorrência, dados comportamentais.
E ainda assim a Coca-Cola desativou o programa. A razão oficial foi "mudança de foco para experiências digitais". A razão real, segundo pessoas que trabalharam no projeto, foi mais simples: o programa não movia agulha em participação de mercado.
Consumidores que já compravam Coca-Cola continuaram comprando. Consumidores que não compravam, não foram convertidos. A Coca-Cola estava essencialmente pagando para recompensar o comportamento que já acontecia sem o programa.
Isso não é uma anedota isolada. A ciência prevê exatamente esse resultado.
A pesquisa que mudou tudo
Andrew Ehrenberg passou 50 anos estudando como as pessoas realmente compram marcas. Não como elas dizem que compram em questionários. Como elas realmente se comportam, com dados de painel de consumo em mãos.
Ehrenberg, junto com Gerald Goodhardt e os pesquisadores do Ehrenberg-Bass Institute for Marketing Science (Universidade do Sul da Austrália), publicou dezenas de estudos sobre padrões de compra de marcas em múltiplas categorias: alimentos, bebidas, produtos de limpeza, cosméticos, farmácias, seguros, automóveis.
A conclusão foi sempre a mesma: o comportamento de compra de marca é surpreendentemente previsível, e surpreendentemente diferente do que o marketing tradicional supõe.
Byron Sharp, diretor do Ehrenberg-Bass Institute e autor de How Brands Grow (2010), sistematizou essas descobertas de forma que qualquer profissional de marketing pode entender e aplicar. O livro é baseado em dados de painel de consumo cobrindo décadas de comportamento real de compra, não em surveys ou focus groups.
O modelo que descreve como você realmente compra
O modelo NBD-Dirichlet (Negative Binomial Distribution-Dirichlet) é a estrutura matemática que descreve o comportamento de compra de marcas com precisão assustadora.
Desenvolvido por Goodhardt, Ehrenberg e Chatfield em 1984, o modelo parte de uma constatação empírica: dentro de uma categoria de produto, os consumidores têm um repertório de marcas aceitáveis. Eles não são leais a uma marca específica. Alternam entre marcas do seu repertório de forma que parece aleatória, mas que segue distribuições estatísticas muito bem comportadas.
O que isso significa na prática:
O que o modelo NBD-Dirichlet prevê (e o que a realidade confirma)
- Polirrepertório: Compradores de qualquer marca também compram marcas concorrentes. Um comprador de Heineken também compra Corona, Stella Artois e possivelmente a marca própria do supermercado.
- Penetração determina lealdade: Marcas com mais compradores automaticamente têm compradores um pouco mais leais. Não o contrário. Você não consegue aumentar lealdade para depois crescer. Você cresce primeiro, e a lealdade sobe como consequência.
- Heavy users são uma minoria que já existe: Seus clientes mais frequentes já são seus clientes mais frequentes. Investir em retê-los ainda mais tem retorno marginal decrescente.
- Light buyers são a maioria e representam a oportunidade: O crescimento real vem de converter não-compradores em compradores ocasionais, não de transformar compradores ocasionais em heavy users.
A Lei da Double Jeopardy
William McPhee descreveu o fenômeno em 1963, num contexto de pesquisa sobre audiências de rádio. Ehrenberg o aplicou ao comportamento de compra de marcas décadas depois, e o batizou de Double Jeopardy: duplo perigo.
A lei é contra-intuitiva: marcas menores sofrem duplamente em comparação a marcas líderes.
O corolário é poderoso: não existe caminho para crescimento que comece pela fidelidade. Você não cresce convertendo 10% dos seus light buyers em heavy users. Você cresce alcançando novos compradores e tornando-se mentalmente disponível para mais pessoas em mais situações de compra.
Ehrenberg e colegas validaram essa lei em dezenas de categorias, países e décadas. Trata-se de uma regularidade empírica tão robusta quanto uma lei física aplicada a mercados, não de uma exceção restrita a contextos específicos.
"Brands grow primarily by getting more buyers, not by getting existing buyers to buy more often."
Byron Sharp, How Brands Grow (2010)O problema do Net Promoter Score
Em 2003, Fred Reichheld publicou na Harvard Business Review o artigo "The One Number You Need to Grow". O número era o NPS. A premissa era sedutora: promotores impulsionam crescimento mais do que qualquer outra variável. Meça o NPS, aumente o NPS, cresça.
O problema: os dados não sustentam a promessa.
Keiningham e colegas (2007), publicado no Journal of Marketing, replicaram o estudo original de Reichheld usando dados de painel longitudinais em múltiplas categorias. Conclusão: o NPS não é superior a outras métricas de satisfação para prever crescimento. Em várias categorias, métricas mais simples de satisfação geral previam crescimento com mais precisão.
O Ehrenberg-Bass Institute foi mais direto: marcas com alto NPS e baixa penetração não crescem. Marcas com penetração crescente crescem, mesmo com NPS mediocre. A relação entre lealdade declarada e comportamento de compra real é fraca.
Você pode ter 80% de promotores e não crescer. Você pode ter 40% de promotores e crescer rapidamente, se estiver alcançando novos compradores.
Quando loyalty funciona (e por que é exceção, não regra)
Seria desonesto ignorar os casos em que programas de fidelidade funcionam. Amazon Prime e Starbucks Rewards são frequentemente citados como provas de que loyalty é estratégia válida. São. Mas por razões específicas que raramente se aplicam ao caso geral.
Amazon Prime
O Prime funciona como um mecanismo de custo de troca, estruturalmente diferente de um programa de pontos. Uma vez dentro, o consumidor tem incentivos financeiros concretos para concentrar compras na Amazon: frete grátis, velocidade de entrega, acesso ao catálogo de streaming. O programa cria fricção real para sair, gerando dependência de conveniência em vez de preferência genuína pela marca.
É fidelidade por lock-in, não por preferência genuína. E exige infraestrutura de serviços que 99% das marcas não têm.
Starbucks Rewards
O Starbucks opera em uma categoria onde frequência de compra já é naturalmente alta (bebidas diárias) e onde a customização do produto cria habit loops poderosos. O app funciona como mecanismo de pedido antecipado que reduz fricção na compra. O programa de pontos acelera um comportamento que já seria frequente por outras razões.
Para a maioria das marcas, em categorias de frequência média ou baixa, programas de fidelidade são instrumentos caros de recompensar comportamento que já ocorreria de qualquer forma.
O que cresce marcas de verdade
Se fidelidade não é o motor de crescimento, o que é? A resposta da ciência é clara: disponibilidade mental e disponibilidade física.
Disponibilidade mental é a probabilidade de uma marca vir à mente em uma situação de compra. Isso vai além do top-of-mind espontâneo genérico: abrange a presença da marca em situações específicas, como quando o consumidor está com calor, quando precisa de um presente de última hora, ou quando quer recompensar um bom dia de trabalho.
Sharp e Romaniuk desenvolveram o conceito de Category Entry Points (CEPs): as situações mentais, emocionais e físicas que precedem uma decisão de compra. Uma marca que está mentalmente disponível em mais CEPs tem vantagem estrutural sobre concorrentes que concentraram esforço em aprofundar relacionamento com um grupo menor de consumidores.
Disponibilidade física é a probabilidade de a marca ser encontrada quando o consumidor decide comprar. Distribuição, posicionamento no ponto de venda, facilidade de acesso. Uma marca que só existe num canal tem disponibilidade física limitada.
Framework: Penetration-First Growth
- Mapeie seus Category Entry Points: Em quais situações de compra você quer que sua marca apareça? Liste pelo menos 8 CEPs relevantes para a categoria.
- Meça sua associação a cada CEP: Pesquisa de associação mental. Para cada CEP, qual percentual dos compradores da categoria cita sua marca?
- Invista em cobertura, não em profundidade: É mais eficiente estar presente em 8 CEPs com força moderada do que dominar 2 CEPs com força máxima.
- Distribua amplamente: Cada canal fechado é penetração bloqueada. Distribuição física segue a mesma lógica da disponibilidade mental.
- Crie ativos distintivos, não diferenciação funcional: O que faz sua marca ser reconhecida rapidamente é mais importante do que o que a torna "única".
- Meça penetração, não fidelidade: Quantas pessoas novas compraram sua marca este ano? Esse é o número que prediz crescimento.
O que fazer com seus dados de loyalty agora
- Seu programa retém compradores que sairiam sem ele, ou recompensa comportamento que aconteceria de qualquer forma?
- Qual percentual do seu orçamento de marketing vai para retenção versus aquisição? Você está super-indexando em retenção?
- Você mede penetração (% de compradores da categoria que compraram sua marca nos últimos 12 meses) como métrica primária de crescimento?
- Você sabe quantos Category Entry Points existem na sua categoria? Em quantos deles sua marca é mentalmente disponível?
- Sua comunicação alcança compradores leves e não-compradores, ou está concentrada em ativar a base existente?
- Você tem disponibilidade física adequada? Sua marca está onde os compradores ocasionais compram, não só onde seus heavy users compram?
A conclusão inconveniente
Lealdade de marca existe. Não é invenção. Mas é consequência de crescimento, não causa. Marcas que crescem têm compradores mais leais. Marcas que tentam crescer pela lealdade geralmente ficam estagnadas, recompensando uma base existente enquanto o mercado endereçável permanece subexplorado.
A intuição de que "clientes fiéis são mais rentáveis" está matematicamente correta numa análise de um único cliente. Está matematicamente errada quando usada como princípio orientador de estratégia de crescimento.
A pesquisa de Ehrenberg e Sharp não é nova. How Brands Grow foi publicado em 2010. Os dados empíricos que o sustentam vêm dos anos 1970 e 1980. Mais de 50 anos de evidência apontam na mesma direção.
E ainda assim, a maioria dos planos de marketing continua priorizando retenção, NPS, lifetime value e loyalty programs sobre alcance, penetração e disponibilidade mental.
Isso é o viés de sobrevivência do marketing: as histórias de sucesso de loyalty que chegam até nós são exceções cuidadosamente selecionadas. Os 90% de programas que não moveram agulha nenhuma não viraram case na Harvard Business Review.
A questão central está em parar de sacrificar alcance no altar da fidelidade, sem abrir mão dos clientes existentes.
Referências
Livros
- Sharp, Byron. How Brands Grow: What Marketers Don't Know. Oxford University Press, 2010.
- Sharp, Byron & Romaniuk, Jenni. How Brands Grow Part 2. Oxford University Press, 2016.
- Ehrenberg, Andrew. Repeat Buying: Facts, Theory and Applications. 2ª ed. Griffin, 1988.
Artigos Acadêmicos
- Goodhardt, G.J., Ehrenberg, A.S.C. & Chatfield, C. "The Dirichlet: A Comprehensive Model of Buying Behaviour." Journal of the Royal Statistical Society, Series A, 147, 1984.
- Ehrenberg, A.S.C., Goodhardt, G.J. & Barwise, T.P. "Double Jeopardy Revisited." Journal of Marketing, 54(3), 1990.
- Keiningham, T.L. et al. "A Longitudinal Examination of Net Promoter and Firm Revenue Growth." Journal of Marketing, 71(3), 2007.
- Romaniuk, Jenni & Sharp, Byron. "Conceptualizing and Measuring Brand Salience." Marketing Theory, 4(4), 2004.
- Uncles, M.D., Ehrenberg, A.S.C. & Hammond, K. "Patterns of Buyer Behavior: Regularities, Models and Extensions." Marketing Science, 14(3), 1995.
- Reichheld, Frederick F. "The One Number You Need to Grow." Harvard Business Review, dezembro 2003.
Cases e Dados
- Ehrenberg-Bass Institute for Marketing Science. "Marketing Science Review." Universidade do Sul da Austrália, múltiplas edições.
- Marketing Week / Mark Ritson. "The case against loyalty programmes." 2019.
- Kantar. "BrandZ Global Report." Edições 2019–2024.