TL;DR
Em 2017, a P&G cortou US$200 milhoes em investimento de targeting digital. O alcance aumentou 10%. As vendas continuaram iguais. O Ehrenberg-Bass Institute provou, em 25 anos de dados e mais de 50 categorias, que os perfis de compradores de marcas concorrentes raramente diferem. A Adidas investiu 77% do budget em performance e quase destruiu seu brand equity. A ciencia e clara: segmentacao estreita sacrifica crescimento de marca. O mercado ainda faz o contrario.
US$200 milhoes jogados no targeting errado
Em 2016, a Procter & Gamble era a maior anunciante do mundo. Marc Pritchard, Chief Brand Officer da empresa, fez uma declaracao que reconfigurou a conversa sobre midia digital. A P&G tinha ido longe demais com a segmentacao de precisao. O targeting estava tao granular que os anuncios atingiam audiencias minusculas, com frequencia excessiva, enquanto milhoes de potenciais compradores ficavam fora do radar.
A empresa cortou US$200 milhoes do investimento em midia digital programatica. O resultado? O alcance cresceu 10%. As vendas se mantiveram estaveis. Nenhum impacto negativo mensuravel.
Pense nisso. A maior anunciante do planeta removeu duzentos milhoes de dolares de targeting digital e descobriu que o dinheiro estava sendo desperdicado em precisao inutil. O CFO da P&G, Jon Moeller, confirmou em call com investidores em 2018: o corte "did not have any negative impact on growth".
O que a P&G entendeu, e que boa parte do mercado ainda resiste a aceitar, e que segmentacao de precisao tem um ponto de retorno decrescente. Alem desse ponto, cada camada adicional de targeting reduz o universo de compradores potenciais sem compensar em taxa de conversao. Voce melhora a eficiencia do clique e degrada a eficacia da marca.
A crenca que o mercado defende
O argumento e sedutor. Dados permitem identificar o consumidor ideal. Plataformas digitais permitem entregar a mensagem certa, para a pessoa certa, no momento certo. Por que desperdicar dinheiro falando com quem nao vai comprar?
Essa logica domina salas de reuniao de marketing em todo o mundo. E o modelo mental padrao da era digital. E tem tres falhas estruturais que a ciencia ja documentou.
A primeira: a suposicao de que existe um "consumidor ideal" e que ele e diferente dos consumidores dos concorrentes. A segunda: a suposicao de que investir em alcance amplo e desperdicio. A terceira: a suposicao de que dados de comportamento passado predizem comportamento futuro com precisao suficiente para justificar restricoes de audiencia.
Todas as tres estao erradas. Os dados sao claros.
A lei que destrói a hipersegmentacao
O Ehrenberg-Bass Institute for Marketing Science, da Universidade do Sul da Australia, e o maior centro de pesquisa empirica sobre como marcas crescem. Andrew Ehrenberg comecou o trabalho nos anos 1960. Byron Sharp e Jenni Romaniuk continuaram nas decadas seguintes. O acervo de dados cobre mais de 50 categorias, dezenas de paises e mais de 25 anos de analise longitudinal.
Uma das descobertas mais replicadas do instituto e a Lei dos Perfis de Usuarios de Marca: os perfis demograficos e comportamentais dos compradores de marcas concorrentes dentro de uma mesma categoria raramente diferem.
perfis de compradores de marcas rivais sao praticamente identicos
O estudo de Kennedy, Ehrenberg e Long (2000), replicado por Sharp, Riebe e colegas em 2012, analisou marcas concorrentes em categorias de bens de consumo, servicos financeiros, telecomunicacoes e varejo. O resultado e consistente: compradores de Coca-Cola e compradores de Pepsi tem o mesmo perfil. Compradores de Nike e compradores de Adidas tem o mesmo perfil. Compradores de iPhone e compradores de Samsung tem o mesmo perfil.
A implicacao e devastadora para a logica da hipersegmentacao. Se os perfis de compradores sao iguais entre marcas rivais, entao o targeting baseado em perfil demografico ou comportamental nao identifica "seu" consumidor. Identifica o consumidor da categoria. E excluir partes desse universo e excluir compradores em potencial.
"The customer profiles of rival brands seldom differ. The implication is that sophisticated segmentation and tight targeting often just reduce your reach to people who would have bought anyway." Byron Sharp, Ehrenberg-Bass Institute, 2023
Os light buyers que o targeting ignora
O Ehrenberg-Bass documentou outra regularidade que reforca o argumento. A distribuicao de compras dentro de qualquer marca segue um padrao Pareto modificado: os 20% mais pesados de compradores geram cerca de 50% a 60% das vendas. O Pareto classico diria 80/20. A realidade e mais equilibrada.
Isso significa que os 80% de compradores mais leves, os light buyers, geram entre 40% e 50% das vendas de uma marca. Quase metade. E esses light buyers sao os que a segmentacao de precisao tende a excluir primeiro, porque seus sinais comportamentais sao fracos, esporadicos e dificeis de capturar por algoritmos de targeting.
O problema se agrava quando consideramos crescimento. Romaniuk e Sharp demonstraram em How Brands Grow: Part 2 (Oxford University Press, 2015) que o crescimento de marca vem predominantemente da aquisicao de novos compradores e do aumento de penetracao, e que esses novos compradores sao, quase por definicao, light buyers ou non-buyers da marca no momento anterior.
O targeting de precisao otimiza para heavy buyers existentes. Ou seja: para o segmento que ja compra, com a frequencia que ja compra. O crescimento incremental vem de outro lugar, e o targeting de precisao esta, por definicao, excluindo esse lugar.
Adidas: 77% em performance e a marca comecou a desaparecer
Em outubro de 2019, Simon Peel, entao diretor global de midia da Adidas, fez uma declaracao publica que sacudiu o mercado. A empresa tinha investido 77% do budget de marketing em performance e ativacao, contra 23% em construcao de marca. A recomendacao de Binet & Field, baseada em decadas de dados do IPA, era exatamente o inverso: 60% em marca, 40% em ativacao.
O resultado da Adidas foi o que a ciencia preveria. O excesso de performance marketing gerou vendas de curto prazo, otimizou metricas de clique e conversao, e degradou progressivamente o brand equity da empresa. Peel admitiu: "We had a problem. We focused too much on efficiency rather than effectiveness."
A Adidas nao fazia brand tracking. Sem medicao de longo prazo, os dados de curto prazo dominaram as decisoes. E os dados de curto prazo sempre favorecem performance sobre marca, porque os efeitos de marca sao lentos, cumulativos e dificeis de atribuir a uma peca especifica. Enquanto isso, cada real investido em performance gera um clique rastreavel.
A armadilha e simetrica. Quanto mais voce investe em targeting preciso e performance, mais dados de curto prazo voce gera que justificam investir ainda mais em targeting preciso e performance. A marca se degrada silenciosamente, ate que o custo de aquisicao sobe porque ninguem mais lembra da sua marca sem um anuncio pago na frente.
O que Kahneman explica sobre alcance e marca
Daniel Kahneman e Amos Tversky publicaram em 1973 o estudo seminal sobre a heuristica de disponibilidade. A conclusao: pessoas estimam a probabilidade de eventos com base na facilidade com que exemplos desses eventos vem a mente. Quanto mais facilmente voce lembra de algo, mais frequente e importante voce assume que aquilo e.
Aplicado a marcas, o mecanismo e direto. O consumidor em momento de compra nao avalia todas as opcoes disponiveis. Ele recorre ao repertorio de marcas que vem a mente com facilidade. Sharp chamou isso de mental availability, e o conceito e fundamentado pela pesquisa de Kahneman.
O que constroi mental availability? Exposicao repetida, ampla, em contextos variados. E o oposto do targeting restrito. Quando uma marca so aparece para um segmento estreito, ela deixa de construir estruturas de memoria em todos os outros consumidores da categoria. Esses consumidores, quando entram em modo de compra, nao lembram dela. Escolhem o que esta disponivel na memoria.
Tversky e Kahneman (1973) mostraram que a frequencia percebida de um evento e proporcional a facilidade de recuperacao na memoria. Para marcas, facilidade de recuperacao e funcao do numero de exposicoes, da variedade de contextos e do alcance da distribuicao de midia. Restringir o alcance e restringir a construcao de memoria. Restringir a construcao de memoria e restringir o crescimento futuro.
Binet & Field: a evidencia que o mercado ouviu e ignorou
Les Binet e Peter Field analisaram mais de 1.000 cases de eficacia do IPA (Institute of Practitioners in Advertising) em The Long and the Short of It (IPA, 2013). A conclusao central: campanhas que combinam construcao de marca com amplo alcance emocional produzem efeitos de negocio mais fortes e mais duradouros do que campanhas que focam em ativacao de curto prazo e segmentacao precisa.
A ratio otima, segundo os dados do IPA: 60% do budget em construcao de marca (emocional, amplo alcance) e 40% em ativacao (racional, targeting mais preciso). A industria opera, em media, exatamente ao contrario.
Em 2025, na IPA Effectiveness Conference, Binet atualizou o argumento. A apresentacao, intitulada "Go Big or Go Home", confrontou diretamente a obsessao da industria com eficiencia e targeting. O argumento de Binet: "our industry has become focused on efficiency, targeting, and short-term metrics at the expense of scale, reach, and true brand-building effectiveness."
60% construcao de marca (alcance amplo) / 40% ativacao (targeting preciso)
Os dados do IPA mostram que campanhas com alta cobertura de mercado (alcance amplo) geram, em media, 3x mais efeitos de negocios de longo prazo do que campanhas com targeting restrito. O mecanismo e coerente com Ehrenberg-Bass: alcance amplo constroi disponibilidade mental entre light buyers e non-buyers, que sao a fonte do crescimento futuro.
A neuroquimica da exposicao repetida
Robert Zajonc publicou em 1968 o estudo sobre o efeito de mera exposicao: a exposicao repetida a um estimulo, mesmo sem atencao consciente, aumenta a preferencia por esse estimulo. O efeito e robusto, replicado em centenas de estudos subsequentes, e opera abaixo do limiar de consciencia.
Antonio Damasio, em O Erro de Descartes (1994), demonstrou que decisoes, incluindo decisoes de compra, envolvem marcadores somaticos, associacoes emocionais inconscientes formadas pela experiencia. A formacao desses marcadores depende de exposicao variada em contextos diferentes.
O targeting restrito reduz o numero de exposicoes para a maioria dos consumidores da categoria. Reduz a variedade de contextos. E portanto reduz a formacao de marcadores somaticos favoraveis. O resultado: a marca perde relevancia emocional entre compradores em potencial que nunca veem seus anuncios porque o algoritmo decidiu que eles nao fazem parte do "target".
O paradoxo dos dados: quanto mais precisos, menos uteis
A industria de ad tech vendeu durante duas decadas a ideia de que dados de comportamento permitem prever quem vai comprar. A realidade, documentada por Sharp e por pesquisadores independentes, e outra.
Comportamento de compra dentro de uma categoria e estocastico. Compradores alternam entre marcas com regularidade que segue modelos probabilisticos (Dirichlet, documentado por Ehrenberg). A "lealdade" que os dados de CRM sugerem e, na maioria dos casos, uma ilusao estatistica: compradores frequentes de uma marca sao compradores frequentes da categoria, e compram outras marcas com frequencia semelhante.
Quando uma plataforma de targeting identifica um "consumidor leal" e concentra impressoes nele, esta gastando dinheiro com quem ja compraria de qualquer forma. E deixando de investir nos consumidores que poderia conquistar. O economista jargoniza isso como "subsidizing inframarginal consumers". Na pratica: voce paga para convencer quem ja esta convencido.
Mark Ritson, colunista do Marketing Week e professor de marketing, resumiu em 2019: "The more we target, the less we grow. It's not a paradox. It's just math."
O que funciona de verdade
A alternativa ao targeting de precisao extremo e o que Sharp chama de "sophisticated mass marketing". A estrategia segue tres principios:
Alcancar todos os compradores da categoria. O objetivo e maximizar o alcance entre todos os consumidores que compram ou podem vir a comprar na categoria. Segmentacao por categoria sim. Hipersegmentacao por perfil comportamental ou demografico, na maioria dos casos, nao.
Construir e refrescar estruturas de memoria. A comunicacao deve criar e manter Category Entry Points, os momentos e contextos em que o consumidor pensa na categoria. Quanto mais CEPs uma marca ocupa na memoria, maior a probabilidade de ser lembrada e comprada.
Investir em ativos distintivos, com alcance amplo. Cores, logos, sons, formatos, personagens: os distinctive assets precisam ser vistos por todos, repetidamente, para construir reconhecimento automatico. Restringir a audiencia de ativos distintivos e restringir sua eficacia.
Por que a P&G voltou ao alcance
Apos o corte de US$200 milhoes, Marc Pritchard articulou a nova estrategia como "mass reach with precision". O objetivo mudou: em vez de buscar a pessoa certa, buscar a maior cobertura possivel entre compradores da categoria, usando dados para controlar frequencia (nao para restringir audiencia). Em 2019, a P&G declarou que reach era a metrica primaria, substituindo metricas de targeting.
Jon Moeller, CFO da P&G, confirmou em julho de 2019: "A focus on reach is more important than a focus on spend. We're reaching more consumers, more often, more efficiently."
O que isso muda no planejamento
Auditoria anti-hipersegmentacao: 7 perguntas
- Qual porcentagem dos compradores da categoria sua campanha atual atinge? Se esta abaixo de 60%, voce esta perdendo crescimento potencial. Calcule a cobertura real contra o total de compradores da categoria, segundo dados de painel.
- Qual e a ratio de investimento entre construcao de marca e ativacao no seu budget? Se ativacao supera marca, revise o split. O benchmark de Binet & Field e 60/40 para a maioria das categorias de consumo.
- Seus dados de targeting estao otimizando para heavy buyers existentes? Verifique se a maioria das impressoes vai para consumidores que ja compraram nos ultimos 3 meses. Se sim, voce esta subsidiando quem ja compraria.
- Quanto do budget digital esta sendo gasto em frequencia excessiva para audiencias estreitas? Analise a curva de frequencia. Se mais de 20% das impressoes vao para usuarios com frequencia acima de 10, voce esta perdendo dinheiro.
- Sua marca aparece em pesquisas de brand tracking com niveis estaveis de awareness espontaneo? Se awareness espontaneo esta caindo enquanto metricas de performance estao subindo, voce tem o problema da Adidas.
- Voce consegue articular o perfil demografico do seu "consumidor ideal" de forma que ele difira significativamente dos consumidores dos seus concorrentes? Se a resposta e nao, sua segmentacao e ilusoria.
- Qual e o custo de aquisicao de novos clientes nos ultimos 12 meses, comparado com 24 meses atras? Se esta subindo, provavelmente voce esta sofrendo os efeitos da subexposicao de marca entre light buyers e non-buyers.
O alvo que o mercado esta acertando
A ironia do targeting de precisao e que ele acerta. Acerta exatamente as pessoas que ja comprariam. E erra todas as pessoas que poderiam comprar pela primeira vez.
Marcas crescem quando entram na memoria de mais consumidores. Entram na memoria de mais consumidores quando sao vistas por mais consumidores. Sao vistas por mais consumidores quando o alcance e amplo. A cadeia e simples. E a cadeia esta quebrada toda vez que alguem adiciona mais uma camada de segmentacao ao plano de midia.
A P&G entendeu isso em 2016. A Adidas aprendeu da pior forma em 2019. Binet & Field documentaram com 1.000 cases. O Ehrenberg-Bass replicou em 50+ categorias. Kahneman explicou o mecanismo cognitivo.
A pergunta que resta e simples: quantos anos de evidencia sao necessarios para que uma sala de reuniao mude um PowerPoint?
Referencias
Livros
- Sharp, Byron. How Brands Grow: What Marketers Don't Know. Oxford University Press, 2010.
- Romaniuk, Jenni & Sharp, Byron. How Brands Grow: Part 2. Oxford University Press, 2015.
- Binet, Les & Field, Peter. The Long and the Short of It: Balancing Short and Long-Term Marketing Strategies. IPA, 2013.
- Kahneman, Daniel. Thinking, Fast and Slow. Farrar, Straus and Giroux, 2011.
- Damasio, Antonio. Descartes' Error: Emotion, Reason, and the Human Brain. Putnam, 1994.
- Ehrenberg, Andrew S.C. Repeat-Buying: Facts, Theory and Applications. Griffin, 1972.
Artigos e Estudos
- Kennedy, R., Ehrenberg, A.S.C. & Long, S. "Competitive Brands' User Profiles Hardly Differ." Market Research Society Conference, 2000.
- Sharp, B., Riebe, E. et al. "In 25 Years, Across 50 Categories, User Profiles for Directly Competing Brands Seldom Differ." Journal of Advertising Research, 52(2), 2012.
- Tversky, A. & Kahneman, D. "Availability: A Heuristic for Judging Frequency and Probability." Cognitive Psychology, 5(2), 1973.
- Zajonc, Robert. "Attitudinal Effects of Mere Exposure." Journal of Personality and Social Psychology, 9(2), 1968.
- Binet, L. & Field, P. "Effectiveness in Context." IPA, 2018.
- Ehrenberg, A.S.C., Uncles, M.D. & Goodhardt, G.J. "Understanding Brand Performance Measures: Using Dirichlet Benchmarks." Journal of Business Research, 57(12), 2004.
Fontes de Industria
- AdWeek. "When Procter & Gamble Cut $200 Million in Digital Ad Spend, It Increased Its Reach 10%." Marco de 2018.
- Marketing Week. "Adidas: We over-invested in digital advertising." Outubro de 2019.
- Marketing Week. "P&G puts focus on reach: It's a more important measure than spend." Julho de 2019.
- IPA. Les Binet & Will Davis. "Go Big or Go Home." IPA Effectiveness Conference, 2025.
- Ehrenberg-Bass Institute. "The Law of Brand User Profiles." Research Briefs, 2023.
- The Drum. "P&G's media chief doubles down on bid to better balance targeted ads with mass-reach strategies." Maio de 2017.