Propósito de Marca: A Moda que Virou Commodity

Apenas 18% dos consumidores conhecem o propósito declarado das marcas mais famosas do mundo. Se nem as melhores conseguem ser lembradas pelo que "defendem", o que isso diz sobre o investimento massivo em propósito?

TL;DR

A Epidemia do Propósito Genérico

Abra o site de qualquer empresa de médio ou grande porte e você encontrará um propósito. "Existimos para transformar vidas." "Nossa missão é empoderar pessoas." "Acreditamos em um mundo melhor." São frases que poderiam pertencer a qualquer empresa, de qualquer setor, em qualquer lugar do mundo.

O problema é que, quando tudo vira propósito, nada é propósito.

18%
dos consumidores conhecem o propósito de marcas "best-in-class" de propósito, segundo o Ehrenberg-Bass Institute (2025)

Mark Ritson, colunista do Marketing Week e professor de marketing, é um dos críticos mais vocais dessa tendência. Em 2019, ele escreveu: "Brand purpose is by and large a waste of time." Ritson argumenta que a obsessão com propósito desviou a atenção de profissionais de marketing do que realmente importa: vender produtos.

Marketers have been utterly useless at marketing their marketing. Instead of proving ROI, they've been busy writing manifestos about saving the world.

— Mark Ritson, Marketing Week, 2019

O problema vai além da ineficácia. Uma pesquisa do Marketing Week de 2017 revelou que 37% dos consumidores confiam menos em marcas do que costumavam confiar. A arrogância em torno de propósito, segundo os pesquisadores, é parte da razão.

O Que os Dados Dizem

Em 2021, Peter Field, o pesquisador por trás dos estudos de efetividade do IPA (Institute of Practitioners in Advertising), decidiu analisar a questão com rigor. Ele comparou 47 campanhas com propósito declarado contra 333 campanhas sem propósito, usando dados do IPA Effectiveness Awards Databank.

O resultado foi, no mínimo, ambíguo.

Na média, campanhas com propósito performaram pior em várias métricas de negócio. O próprio Field, porém, ressaltou que a média esconde nuances importantes: campanhas de propósito bem executadas podem ser muito eficazes, mas a maioria não é bem executada.

Brand purpose is a great new tool for smart brands with the savvy to know how to use it. Criticism of brand purpose is naïve and unjustified when applied to the best examples.

— Peter Field, IPA, 2021

A distinção é crucial. Propósito funciona quando é genuíno, específico e conectado ao que a empresa faz. Propósito não funciona quando é inventado para seguir tendência, genérico demais para diferenciar, ou desconectado do produto.

Quando Propósito Dá Errado: O Case Pepsi

Em abril de 2017, a Pepsi lançou um comercial estrelado por Kendall Jenner. O filme mostrava a modelo se juntando a um protesto de rua, entregando uma lata de Pepsi para um policial e, aparentemente, resolvendo tensões sociais com refrigerante.

A intenção era projetar "unidade, paz e entendimento", segundo a própria empresa. O resultado foi desastroso.

48h
foi o tempo que o comercial de mais de US$ 5 milhões durou no ar antes de ser retirado

O comercial foi acusado de trivializar o movimento Black Lives Matter e as lutas reais contra brutalidade policial. Bernice King, filha de Martin Luther King Jr., tweetou ironicamente: "If only Daddy would have known about the power of Pepsi."

A Pepsi pediu desculpas e removeu o comercial de toda circulação. Mas o dano estava feito. O caso se tornou referência de como propósito desconectado pode ser pior que nenhum propósito.

O problema não foi tentar ter propósito.

Foi inventar um propósito que não tinha nada a ver com refrigerante, não estava enraizado na história da marca, e tratou questões sérias como oportunidade de marketing.

Quando Propósito Funciona: O Case Natura

No Brasil, a Natura oferece um contraponto interessante. O "Bem Estar Bem", posicionamento adotado nos anos 2000 e retomado em 2023, não é um propósito inventado para surfar tendências. É uma filosofia que orienta a empresa desde sua fundação.

Bem Estar Bem significa uma relação harmoniosa do indivíduo consigo mesmo, mas que busca também a conexão com o outro, com a natureza e com o todo.

— Tatiana Ponce, VP de Marketing da Natura, 2024

A diferença para o caso Pepsi é estrutural. O propósito da Natura:

A lição da Natura

Propósito não é o que você declara. É o que você faz repetidamente, ao longo de décadas, mesmo quando ninguém está olhando.

A Natura não precisa explicar seu propósito porque ele é evidente em cada decisão de negócio.

Kapferer e a Cultura de Marca

Jean-Noël Kapferer, em seu clássico modelo do Prisma de Identidade de Marca (1996), identificou seis facetas que compõem uma marca: físico, personalidade, cultura, relacionamento, reflexo e autoimagem. Propósito, nessa estrutura, seria parte da faceta cultural.

O insight de Kapferer é que cultura não se inventa. Cultura emerge de valores genuínos, praticados consistentemente. Propósito sem cultura autêntica vira performance. E consumidores percebem performance.

Byron Sharp, do Ehrenberg-Bass Institute, vai além. Em "How Brands Grow", ele argumenta que distintividade é mais importante que diferenciação. Marcas crescem sendo facilmente reconhecidas e lembradas, não necessariamente por terem o melhor propósito.

O problema de muitas marcas é inverter a ordem: buscam propósito antes de construir distintividade. Se ninguém lembra da sua marca, não importa qual seja seu propósito.

O Que Fazer na Prática

  1. Não invente propósito. Se sua empresa não nasceu com uma missão além do lucro, não force. Propósito inventado é detectável e gera cinismo.
  2. Conecte ao negócio. Propósito desconectado do produto é indefensável. Se você vende refrigerante, seu propósito provavelmente não deveria ser sobre justiça social.
  3. Seja específico. "Transformar vidas" não é propósito. É clichê. Propósito eficaz é específico o suficiente para guiar decisões e distintivo o suficiente para diferenciar.
  4. Aceite que propósito não é obrigatório. Muitas marcas excelentes não têm propósito declarado. Têm produtos bons, preços competitivos e distribuição eficiente. Isso é suficiente.
  5. Distintividade primeiro. Antes de definir seu "porquê", garanta que as pessoas reconheçam e lembrem da sua marca. Ativos distintivos são a fundação sobre a qual qualquer estratégia se constrói.

Propósito de marca pode ser uma ferramenta poderosa. Mas ferramentas mal utilizadas causam dano. O fato de todos terem propósito não significa que você precisa de um. E se você decidir ter, que seja genuíno, não fabricado para agradar investidores ou seguir tendências.

Perguntas Frequentes

Propósito de marca vale a pena?

Depende. Propósito só funciona quando é genuíno, conectado ao negócio e sustentado por ações reais. Marcas como Natura demonstram que propósito autêntico gera valor. Marcas que inventam propósito para seguir tendência geralmente desperdiçam recursos.

Toda marca precisa de propósito?

Não. Muitas marcas de sucesso crescem sem propósito declarado, focando em produto, preço e distribuição. Distintividade (ser facilmente reconhecida) é mais importante que ter um propósito.

Como saber se meu propósito é genuíno?

Pergunte: esse propósito existia antes de propósito virar moda? Está conectado ao produto? É sustentado por ações concretas? Se as respostas forem "não", provavelmente é fabricado.