"Bom o Suficiente" como Estratégia
Satisficing é um termo cunhado por Herbert Simon em 1956, combinando "satisfy" (satisfazer) e "suffice" (bastar). Descreve uma estratégia de decisão onde buscamos uma opção que atenda nossos critérios mínimos, em vez de buscar a opção ótima.
Para economistas clássicos, isso parecia irracional. Para Simon (que ganhou o Nobel por isso), era a única forma realista de sobreviver num mundo de informação limitada e tempo escasso.
Definição prática: Satisficing é escolher a primeira opção que cruza o limiar de "bom o bastante", em vez de avaliar todas as opções em busca da melhor.
Herbert Simon: O Pai da Ideia
Herbert A. Simon (1916-2001)
Economista, cientista cognitivo e Nobel de Economia (1978). Desenvolveu o conceito de "racionalidade limitada", argumentando que humanos não maximizam porque não podem: não temos tempo, informação ou capacidade cognitiva.
Simon mostrou que satisficing não é preguiça. É inteligência adaptativa.
"Decision makers can satisfice either by finding optimum solutions for a simplified world, or by finding satisfactory solutions for a more realistic world."
— Herbert SimonMaximizers vs. Satisficers
Maximizer
- Busca a melhor opção possível
- Compara exaustivamente
- Frequentemente paralisa
- Arrepende-se mais
- Menos satisfeito com escolhas
Satisficer
- Busca opção boa o suficiente
- Define critérios e para ao atingi-los
- Decide mais rápido
- Menos arrependimento
- Mais satisfeito com escolhas
Pesquisas de Barry Schwartz mostram que maximizers, apesar de frequentemente fazerem escolhas objetivamente melhores, são mais infelizes com seus resultados. O custo psicológico da busca pela perfeição supera os benefícios.
Satisficing no Mundo Real
Compra de Imóvel
Você não visita todas as casas do mercado. Define critérios (3 quartos, perto do metrô, até X reais) e compra a primeira que atende.
Contratação
Empresas não entrevistam todos os candidatos do planeta. Definem requisitos e contratam o primeiro que passa.
Escolha de Restaurante
Você não testa todos os restaurantes da cidade. Vai no que parece bom o suficiente e está perto.
Casamento
Ninguém conhece todas as pessoas do mundo antes de casar. Encontramos alguém que atende nossos critérios e paramos de procurar.
Por que Isso Importa para Marketing
Se as pessoas são satisficers (e são), isso muda como devemos pensar sobre competição e escolha:
- Disponibilidade mental importa: Ser lembrado primeiro pode ser mais importante que ser objetivamente melhor.
- Disponibilidade física importa: Estar presente no momento de decisão é crucial.
- Bom o suficiente basta: Você não precisa ser perfeito. Precisa cruzar o limiar de aceitabilidade.
- Facilidade de escolha importa: Reduzir fricção pode superar diferenças de qualidade.
"People don't choose brands. They settle for brands."
— Rory Sutherland (parafraseando Byron Sharp)Implicações Práticas
Para marcas: Não gaste tudo tentando ser "a melhor". Gaste em ser lembrada, encontrada e fácil de escolher. A competição real não é contra o melhor concorrente. É contra a inércia e a invisibilidade.
O satisficing explica muitos comportamentos que parecem "irracionais":
- Por que pessoas compram o mesmo produto de sempre (economia cognitiva)
- Por que promoções funcionam (cruzam o limiar de aceitabilidade)
- Por que placement importa (facilidade de acesso)
- Por que simplicidade vence complexidade (menos esforço de avaliação)
O Limiar de Aceitabilidade
O conceito-chave é o limiar: o ponto mínimo que uma opção precisa cruzar para ser considerada "boa o suficiente". Esse limiar é:
- Contextual: Muda conforme a situação e importância da decisão
- Pessoal: Varia entre indivíduos
- Adaptativo: Se ajusta baseado em experiências anteriores
- Influenciável: Pode ser moldado por comparações e expectativas
Entender onde está o limiar do seu consumidor é tão importante quanto entender seus desejos.