Boa parte do mercado ainda define concorrência olhando para semelhança de discurso, território criativo ou promessa funcional. A evidência acumulada por Andrew Ehrenberg, Byron Sharp, Jenni Romaniuk, John Dawes e colegas aponta outra direção. Marcas dividem compradores com todas as outras marcas da categoria, em proporção parecida com o tamanho de cada uma. Em termos práticos, isso significa que o rival que mais pressiona sua marca costuma ser o que já alcança mais gente, não o que soa mais parecido na apresentação de posicionamento. Quando esse ponto entra na estratégia, muda quase tudo: benchmark, mídia, distribuição, portfólio e até a leitura de quem merece sua atenção na reunião de concorrência.
A reunião de concorrência costuma começar pelo mapa errado
Quase toda empresa já viveu a cena. Alguém projeta um slide com dois eixos, distribui os logos pelo quadro e declara quem compete com quem. A lógica parece elegante: se duas marcas ocupam o mesmo território de fala, disputam o mesmo comprador. Se uma tem tom premium e a outra também, então a ameaça mora ali. Se uma vende para empreendedores e a outra também, então o duelo é esse.
O problema é que compradores reais não se comportam como o organograma da apresentação. Eles montam repertórios. Alternam opções. Compram o que lembram, o que encontram, o que cabe no contexto daquele momento. Por isso, a categoria costuma se organizar de forma bem menos romântica e muito mais estatística. Em vez de pequenos feudos bem delimitados, o que aparece são bases de compradores sobrepostas.
Andrew Ehrenberg resumiu isso de forma brutal há décadas: seus clientes também são clientes de outras marcas. Essa frase continua difícil de engolir porque ela derruba uma fantasia confortável. A fantasia diz que a marca constrói um pedaço privado do mercado. A evidência diz que ela aluga atenção e compra ocasional em um mercado compartilhado.
Esse raciocínio conversa diretamente com outro ponto já desenvolvido aqui no site, em Lealdade de Marca é Uma Ilusão e em Aquisição ou Retenção?. Crescimento de marca aparece, em geral, quando a base de compradores aumenta. Se o mercado compra várias marcas ao longo do tempo, a disputa principal deixa de ser por um clube fechado de fiéis. A disputa passa a ser por presença na memória e por facilidade de compra dentro de um repertório aberto.
O que a Duplication of Purchase Law mede de fato
A Lei de Duplication of Purchase descreve a sobreposição entre bases de compradores. Ela mostra que uma marca tende a compartilhar mais compradores com as marcas maiores da categoria e menos com as menores. Isso vale em bens de consumo, serviços, B2B e até canais de venda. A regularidade apareceu cedo, foi replicada ao longo de décadas e segue útil porque explica concorrência a partir do comportamento observado, não da retórica da marca.
Jenni Romaniuk levou esse ponto para um relatório recente sobre categorias B2B. Em dados de seguros empresariais nos Estados Unidos, cobrindo 16 produtos, o compartilhamento de clientes caiu em linha com a penetração das marcas. A correlação chegou a 93%. Em média, 24% dos clientes de qualquer empresa da categoria também tinham apólice com State Farm, a marca de maior penetração. Na ponta oposta, a média de compartilhamento com a Humana ficou em 14%, coerente com sua base menor. A leitura estratégica é simples: concorrência real acompanha presença no mercado.
Magda Nenycz-Thiel reforçou a mesma ideia em entrevista pública do Ehrenberg-Bass ao listar as três leis mais úteis para crescimento. A primeira delas foi exatamente Duplication of Purchase, com uma observação que muita empresa evita encarar: mais vendas tendem a vir das marcas grandes, porque são elas que já ocupam mais espaço no repertório dos compradores. A consequência prática é desconfortável para quem investe meses em guerra simbólica contra um rival pequeno e parecido. O rival que mais pesa no share pode ser outro.
Essa conclusão não significa que posicionamento não importe. Significa algo mais específico. Posicionamento ajuda a orientar consistência, escolha criativa, sentido e memória. Ele não reorganiza, sozinho, a estrutura competitiva da categoria. Quando a marca entra na cabeça e no carrinho de mais gente, a sobreposição cresce com toda a categoria. Quando a marca fica menor, a sobreposição também encolhe. O tamanho relativo continua sendo uma força enorme na forma como a concorrência se distribui.
Participação de mercado muda pouco porque repertório muda devagar
Existe outro motivo para essa lei ser tão útil. Ela explica por que share não se move com a velocidade imaginada em muitas salas de marketing. Um estudo resumido pela The Marketing Society, com seis anos de painel e 140 marcas em 18 categorias do Reino Unido, mostrou que 75% das marcas permaneceram dentro de uma faixa de apenas três pontos de share em relação ao primeiro ano. Apenas sete marcas cresceram mais de seis pontos ao longo de 26 trimestres.
Esse dado importa porque ele desmonta a crença de que concorrência muda a cada campanha. Em mercados maduros, a estrutura da categoria tem mais inércia do que o ego do marketing gostaria. As pessoas seguem comprando repertórios relativamente estáveis. As marcas continuam sobrepostas de modo previsível. E, quando uma cresce de forma relevante, o caminho costuma aparecer primeiro em penetração.
O caso da Kenco no mercado de café instantâneo, citado nesse mesmo material, ajuda a visualizar. A marca ganhou oito pontos de share ao longo do período, subiu no ranking e mudou a estrutura competitiva. Só que o avanço veio porque alcançou mais compradores com a extensão Rappor, não porque seus compradores passaram a beber muito mais café ou ficaram repentinamente mais devotos. A lógica é a mesma da dupla penalização: frequência e lealdade andam um pouco com o tamanho da base, mas o salto decisivo costuma entrar pela porta da penetração.
A concorrência percebida pela apresentação de posicionamento muda rápido. A concorrência medida pelo comportamento de compra muda devagar e segue regularidades muito mais teimosas. Síntese de Ehrenberg-Bass, The Marketing Society e How Brands Grow
É exatamente por isso que o tema conversa com Posicionamento Estreito Mata Marcas. Quando uma empresa define seu mercado de forma estreita demais, ela passa a agir como se competisse contra poucos. O resultado costuma ser redução de alcance, excesso de segmentação e desatenção aos compradores leves que sustentam crescimento.
Marcas pequenas erram o alvo com frequência assustadora
Se existe um grupo especialmente vulnerável a esse erro, é o das marcas pequenas. Quando a verba aperta, cresce a tentação de mirar um microconcorrente que parece mais parecido, mais local ou mais copiável. Só que a Lei de Duplication of Purchase sugere o oposto. Mesmo para marcas pequenas, os grandes nomes da categoria continuam sendo os principais polos de sobreposição.
Alicia Barker explicou isso com um exemplo quase didático: uma cafeteria independente divide compradores com a Starbucks numa proporção que acompanha a popularidade da rede. Muita gente que compra da cafeteria também compra Starbucks. O inverso acontece em escala bem menor. Isso não prova falta de identidade da marca pequena. Prova que compradores montam repertórios e escolhem, antes de tudo, o que está mental e fisicamente disponível.
John Dawes acrescenta outra camada com a chamada Natural Monopoly effect. Em média, as duas maiores marcas de uma categoria tendem a ter uma base que compra a categoria cerca de 25% menos frequentemente do que a base das duas menores. Em linguagem simples, marcas grandes capturam mais compradores leves. Isso faz todo sentido quando lembramos que compradores leves são numerosos, entram menos na categoria e recorrem mais ao que lembram e encontram com facilidade.
O erro caro da leitura competitiva
Quando a marca pequena decide que seu problema mora em um rival pequeno e parecido, ela costuma redistribuir verba de um jeito ruim.
Vai mais energia para diferenciação verbal, nicho, tribo e mensagem de precisão. Vai menos energia para alcance, ativos distintivos estáveis e presença nos pontos em que compradores leves podem encontrá-la.
Meses depois, a base segue curta e a marca conclui que faltou ainda mais foco. O diagnóstico se torna um círculo.
O relatório B2B de Romaniuk diz isso de forma muito prática: marcas ganham e perdem clientes para todas as outras marcas, em proporção aproximada ao tamanho delas. Em dados de bancos empresariais no Reino Unido, até mesmo os fluxos de aquisição e deserção seguiram a mesma lógica. Bancos grandes recebiam mais clientes vindos de todos os outros grupos. Bancos pequenos também perdiam mais para eles. Essa é uma péssima notícia para a tese do concorrente “mais parecido” como principal ameaça. Também é uma ótima notícia para quem quer planejar com base em evidência.
O que isso muda em mídia, distribuição e portfólio
Se concorrência real segue penetração, o plano de crescimento muda de forma concreta. Primeiro, o benchmark deixa de ser apenas a marca com promessa mais próxima. Seu referencial principal passa a incluir as marcas com maior presença mental e física. Segundo, mídia deixa de ser uma conversa sobre eficiência local e vira uma conversa sobre cobertura do mercado comprador. Terceiro, distribuição volta ao centro. A marca precisa ser encontrada onde a categoria gira, tema já tratado em Distribuição: A Estratégia Invisível das Marcas que Crescem.
Isso também afeta portfólio. O crescimento da Kenco mostra que inovação útil pode mexer no jogo quando amplia acesso a mais compradores ou mais situações de compra. O mesmo vale para novos formatos, embalagens, canais e pontos de entrada. A pergunta produtiva deixa de ser “como parecer diferente do meu rival mais parecido?”. Entra outra pergunta: “como facilitar que mais compradores da categoria me lembrem e me encontrem?”
Há ainda um efeito político interno. Equipes comerciais e de produto frequentemente conhecem bem os casos em que perdem negócios para rivais específicos e barulhentos. Esses casos chamam atenção porque doem. Só que amostra memorável não é retrato estrutural. A Lei de Duplication of Purchase funciona justamente como antídoto contra a tirania da anedota. Ela obriga a empresa a olhar para o padrão agregado de sobreposição, em vez de concentrar a leitura só nas derrotas mais irritantes do trimestre.
Essa disciplina ajuda a evitar o fascínio pelo narrow targeting. O próprio Ehrenberg-Bass resumiu esse risco em B2B: tentar crescer restringindo o campo de batalha tende a ser contraproducente. Se seus compradores futuros hoje estão com marcas maiores, o plano precisa de escala suficiente para entrar no radar dessas pessoas. Escala amplia a chance de ser lembrado por compradores leves e ocasionais. Sem essa cobertura, a marca volta a conversar quase sempre com quem já a conhece.
Quando a sobreposição foge da média, o diagnóstico melhora
A lei de Duplication of Purchase não diz que todas as marcas são idênticas. Ela diz algo mais útil: existe um padrão esperado de compartilhamento e esse padrão já explica boa parte da concorrência. A partir dele, a empresa consegue enxergar onde existe excesso de sobreposição e onde existe distância acima do normal. Esse segundo passo é muito mais inteligente do que começar a reunião supondo que toda marca com discurso parecido seja, por definição, a principal ameaça.
O próprio acervo do Ehrenberg-Bass registra estudos sobre market partitioning, isto é, situações em que marcas compartilham mais ou menos compradores do que o esperado pelo tamanho relativo. Isso pode acontecer por diferença funcional clara, faixa de preço, regulação, canal de venda ou subcategoria. Em aviação, em combustíveis, em fármacos e em alguns serviços, esses desvios ajudam a entender competição mais de perto. Só que repare na ordem certa das coisas: primeiro vem o padrão geral; depois entram os desvios. Quem pula essa etapa costuma superestimar histórias elegantes e subestimar a força do tamanho.
Essa ordem muda o tipo de pergunta feita pelo estrategista. Em vez de começar com “quem fala mais parecido comigo?”, a pergunta inicial passa a ser “com quais marcas minha base compartilha compradores na intensidade prevista, e onde existe desvio relevante?”. A primeira pergunta gera workshop. A segunda gera diagnóstico. E diagnóstico melhor quase sempre leva a alocação melhor.
Esse ponto é especialmente útil para categorias que adoram se imaginar excepcionais. Toda categoria gosta de dizer que ali o jogo é outro, que o comprador é racional demais, técnico demais, exclusivo demais para obedecer regularidades de mercado. Quase sempre essa autopercepção serve mais ao ego da categoria do que à leitura dos dados. A exceção existe, mas a maior parte do trabalho estratégico continua pertencendo ao campo das regularidades.
B2B e categorias técnicas continuam obedecendo o mesmo princípio
Há um argumento recorrente contra essa linha de raciocínio. Ele diz que essas leis funcionam em prateleira, mas deixam de servir em mercados complexos. O problema é que a própria literatura derruba essa defesa. No estudo de Andrew Ehrenberg e Mark Uncles sobre contratos de combustível de aviação, a Shell, maior marca da categoria, compartilhava mais clientes com todas as demais do que a Chevron, menor marca. O padrão voltava a seguir o tamanho relativo. Em outras palavras, até um mercado industrial, com contratos e compras aparentemente muito racionais, continuava exibindo repertório e sobreposição.
O material de business banking no Reino Unido mostra o mesmo movimento ao longo do tempo. Bancos grandes recebiam a maior parte dos clientes desertores vindos de marcas médias e pequenas, e também cediam mais clientes para outros grandes. O fluxo não se organizava por afinidade verbal. Se organizava por peso de mercado. Isso é valioso porque lembra uma coisa simples: compradores corporativos também simplificam decisão. Eles recorrem a marcas mais conhecidas, mais acessíveis e mais presentes em sua memória institucional.
Philip Stern mostrou algo parecido ao olhar para prescrições de medicamentos de marca e genéricos. Mesmo onde existe troca por princípio ativo, pressão regulatória e influência técnica forte, o padrão de competição ainda pode ser lido pela distribuição observada de compradores. O ganho para o estrategista é enorme. Em vez de depender da intuição do vendedor mais convicto da sala, a empresa passa a observar defeção, aquisição e sobreposição como fenômenos mensuráveis.
Quanto mais técnica parece a categoria, mais importante fica esse freio contra o excesso de narrativas internas. Categorias técnicas geram muitas histórias convincentes. O problema é que histórias convincentes podem coexistir com mercados organizados por regularidades simples. Duplication of Purchase não elimina a necessidade de leitura qualitativa. Ela coloca a leitura qualitativa no lugar certo, depois que o padrão quantitativo já mostrou onde a marca realmente perde, ganha e divide compradores.
Checklist para usar Duplication of Purchase sem virar jargão
Cinco perguntas para a próxima reunião
- O mapa de concorrência da marca parte de dados de sobreposição de compradores ou apenas de semelhança de posicionamento?
- Os grandes players da categoria estão no centro do benchmark, mesmo quando parecem menos parecidos com a narrativa da marca?
- O plano de mídia compra alcance real sobre compradores leves e ocasionais?
- A distribuição cobre os pontos e canais que concentram volume da categoria?
- O portfólio cria formas adicionais de entrada na categoria, em vez de só repetir a mesma oferta para a mesma base?
No fim, a categoria é maior que a nossa história favorita
É tentador acreditar que concorrência pode ser resumida por uma história elegante sobre propósito, território e semelhança. Histórias assim são limpas. Mercados não são. Mercados são sistemas de memória imperfeita, disponibilidade desigual e repertórios compartilhados. É por isso que Duplication of Purchase continua valiosa. Ela troca a fantasia do mapa bonito pela sujeira do comportamento real.
Para a estratégia, a implicação é direta. Quem quer crescer precisa observar com mais seriedade as marcas que já alcançam mais compradores, mesmo quando elas parecem distantes do seu discurso. São elas que concentram sobreposição, atenção e facilidade de lembrança. Concorrência, no fim das contas, acompanha presença.
E presença, na maior parte das categorias, ainda ganha o jogo antes da retórica.
Referências
Estudos e institutos
- Romaniuk, Jenni. How do Business-to-Business (B2B) brands compete? An application of the Duplication of Purchase Law, Ehrenberg-Bass Institute / LinkedIn B2B Institute, 2025.
- Nenycz-Thiel, Magda. 3 main laws of brand growth in these uncertain times, Ehrenberg-Bass Institute, 2024.
- Ehrenberg, Andrew e Uncles, Mark. Industrial Buying Behavior: Aviation Fuel Contracts, International Journal of Research in Marketing, 1990.
- Dawes, John. The Natural Monopoly Effect in Brand Purchasing, Australasian Marketing Journal, 2020.
- Sharp, Byron. How Brands Grow, Oxford University Press, 2010.
- Sharp, Byron e Romaniuk, Jenni. How Brands Grow Part 2, Oxford University Press, 2016.
- Ehrenberg, Goodhardt e Barwise. Revisões sobre Double Jeopardy e regularidades de compra, 1990.
- The Marketing Society. Resumo do painel de seis anos com 140 marcas e 18 categorias no Reino Unido.
- Barker, Alicia. Small But Mighty: Tiny Brand Advertising Strategies, B&T / Ehrenberg-Bass Institute, 2023.
- Stern, Philip. Prescriptions for branded and generic pharmaceuticals, Journal of Brand Management, 1994.